Comecei a voar há cerca de 5 anos atrás...
Uma amiga boa mandou-me um e-mail que dizia:
"olha aqui um trabalho bom para gajas desocupadas!"Eu concorri e fiquei.
Voei durante algum tempo. Conheci partes do mundo, que nunca esperei conhecer. E conheci partes de mim, que seria impossível descobrir se estivesse na Terra.
Lembro-me de um voo que fazia para São Tomé, todas as semanas. Era um voo difícil... Fazer São Tomé ida e volta, são mais ou menos 7 horas de viagem para lá. Duas horas no chão para desembarque, limpeza do avião e embarque novamente de passageiros. E depois mais 7 horas de viagem para cá.
Para lá, o voo era nocturno. Para cá, diurno - depois de uma noite inteira sem dormir.
Mas era um voo do qual gostava.
Na volta, sobrevoamos o Sahara durante muito tempo. Temos a noção espacial do grande mar de areia que avassala África. Lembro-me de ficar à janela só a olhar o deserto... outras vezes, de ir ao cockpit e ficar a olhar a linha ténue que separa o céu da areia.
Agora que voltei a voar, voltaram também todas essas sensações... Ver a Terra do Céu é das coisas mais fabulosas a que o ser humano se pode submeter. É a noção da nossa pequenez e de grandeza do Mundo.
Quando descolamos, um dos procedimentos é fazer um silent review. Senta-mo-nos no jumpseat, concentra-mo-nos, e revemos na nossa cabeça todos os procedimentos de emergência que aprendemos, no caso de alguma coisa correr menos bem. Se algo acontecer, temos tudo estudado, previsto e actuamos.
No silent review, vejo tudo isso. Estou pronta a actuar.
... e abraço todas as pessoas de quem gosto. Falo com elas no meu pensamento. Digo-lhes o quanto as amo, o quanto me fazem ainda mais feliz, e recordo sempre momentos bons, muito bons que passo com elas.
A aviação é boa para nos dar o real imediato que é a vida.
Quando se voa, nunca nada é como planeado. Todos os voos atrasam, e nem sempre o regresso a casa, aos que amamos, aos que nos querem bem; é como planeado. Basta uma simples coisa acontecer na Terra, e tudo à nossa volta se altera. E tudo na nossa vida deixa de ser o que era previsto.
Num desses voos para São Tomé, lembro-me de sobrevoarmos a Argélia, e de repente, duma revolução se ter instalado no país, as autoridades argelinas, simplesmente nos disseram via rádio:
"a partir deste momento não podem voar o nosso espaço aéreo. Ou voltam para trás ou abatemos o avião." E a vida transformou-se. E tudo o que era, deixou de ser.
São estas coisas, estas pequenas coisas, que nos ajudam a crescer de dentro. A ficarmos "mais altos" como diz a poetisa.
São estas coisas que me fazem ignorar um colega mais embirrante ou mais Don Juan, um passageiro mais chato ou um voo mais difícil. São estas coisas, que me fazem sorrir quando um passageiro me dá 5 euros de gorjeta para eu ir à bica (depois de eu ter feito o meu trabalho de lhe guardar a mala!), ou quando um colega me dá uma lata de cola (depois de muiiiiiittttoooo agitada) para eu dar a um passageiro e fica com falta de ar, só de rir a ver o que vai acontecer; ou ainda, quando um Comandante antes do embarque dos passageiros, me pede para ver os sapatos e eu, URSA, me descalço para lhos mostrar, e ele os manda porta fora do avião (como aconteceu no último voo!!) pondo toda a tripulação a rir, vendo-me ir à placa DESCALÇA buscar os sapatos!
É esta. Esta vida que eu escolhi e que de alguma forma o Universo me permite ter, que me faz amar mais as coisas, as pessoas, os sítios.... É esta incerteza de voltar, ou de quando voltar tudo estar diferente, que me dá a real vida. Porque ela é mesmo assim - rápida, imprevisivel, cheia de ritmo...
E mesmo os que me acham lírica, sem querer, se vêm entrar neste ciclo... nesta espiral.
Nunca os meus pais se abraçariam a mim desta maneira, se eu fosse trabalhar para um escritório qualquer... Nunca o meu irmão me telefonaria a saber se o dia naquele trabalho de uma loja ou de um restaurante, me tinha corrido bem... Nunca o meu amor feito homem, se despediria de mim com tanta ternura, se levantaria às 4 da manhã para me ir por ao trabalho, ou me telefonaria passadas duas horas a saber se está tudo bem...
Quer se queira, quer não, os aeroportos são lugares de amor - como diz o autor do filme "Love Actually" - são lugares de amor onde deixamos os que amamos, plenos de certeza que os voltamos a ver... e com o coração apertado. Porque lá no fundo... mesmo no fundo, escondido entre as brumas de todas as emoções, está sempre a incerteza. Mínima... mas viva. Que só desaparece, no mesmo aeroporto, quando vimos, por debaixo da placa "Chegadas", o semblante de quem amamos. Vivo e de braços abertos, para nos receber de volta ao coração.